Mostrando postagens com marcador lama. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador lama. Mostrar todas as postagens

27.9.10

sobre o calor



- Cansada. Seus lábios pesavam irreverentemente, a pele transpirava como se a dor de se carregar todo o desejo do mundo não fosse incrível o suficiente. Como se tudo o que se deseja não fosse nunca o suficiente.

Ele notava o coração palpitante no pescoço, a pele ainda eriçada. Percebia a respiração aparentemente calma que com angústia revertia o pequeno nariz dispendioso em templo temporário. Gostava do olhar pesado que ela sempre teve, um peso de tudo aquilo que encharca sem deixar derramar.

Ela não deixaria derramar, não para qualquer um.

Duas pernas de fora e um calor de se rasgar a roupa por alívio. Suas duas pernas que andariam o que fosse por ele. Ela de fato nunca admitiria... duas pernas prontas para largar tudo por ele e pelo suor do seu corpo. Ela, toda pronta para confundir-se com a química do suor dele...

As mãos nervosamente procuram pela página perdida no devaneio.

(Sonhar tão grande e grave deveria ser coisa para algum quarto escuro...) -



10.9.10

por fim, enfim



enquanto cor e enquanto força, a marca do peso quase leve demais perdia a pureza e o resultado era a fome. a fome para que o gosto não se perdesse por completo. para que as marcas na sua história não fossem tão passageiras quanto as que já se apagavam do corpo.

enquanto tempo, ela não o dominava e nem pedia por mais. 

ela queria menos. 

menos espera nessa sala cinzenta e com cheiro de incerteza que tão bem conhecia.

mas enquanto esperava, rabiscava qualquer coisa num pedaço de papel. seria o rosto dele? ou um nome quase esquecido que ainda vagava pelos seus sonhos diários, um tipo com um ar de problema e recompensa maior do que a espera, mais aguardado e menos impossível de se obter do que a paz mundial, mais relevante ao seu mundo de cubículo em romance clássico do que qualquer outro mundo infantilizado ou estilizado de suas companheiras de sala de espera...

era. era ele por fim.

um nome. ela tinha algum nome escrito num papel, enfim.



***


*foto: aubrey no fígaro, por moi.

2.9.10

o homem da razão





'o que é isso então?' foi a pergunta que estraçalhou todas as incertezas que ele carregava nos ombros naquela tarde fria.

'um nada. para que algo tem que ser qualquer coisa?'

mesmo sem querer ele queria não querer e isso sem dúvida alguma era a dúvida que ela representava. 

a dúvida. porque ela sempre perguntava e respondia com a negação em mente? 

porque era mulher, uma mulher de pele tão feminina que todas as flores da estação revidavam com o mesmo vigor quando ela passava... as cores desavisadas revidavam em tons mais quentes, as dobras e cantos das pétalas se rebuscavam incandescentes num ato de pleno desespero e medo de perder suas posses, as folhas envergonhadas rejeitavam o vento e as árvores... bem, as árvores observavam quietas mais uma rival móvel, enfeitiçante e enfeitiçada como o vento que não fazia mais do que passar e partir... para nunca mais ou para talvez amanhã cedinho.

era mulher. a mulher que era a dúvida.

'e porque tamanha dúvida? por que não acreditar no que não se tem razão?'

'porque de falta de razão quem entende sou eu, e tudo o que eu quero saber de entender agora é de você... razão aparte de mim que quero ter... para mim.'

o vento soprava quase infértil...

'porque o vento é homem da razão..'


***



*imagem Alice & Jo do filme 'dans paris'.









17.8.10

despreparo...




então que me deixe ser. 

que os dedos fiquem presos aos meus cabelos já que nunca tive medo da imagem turva que a memória teima em não apagar.

o gosto dos dentes contra a carne ainda fresca depois de um banho qualquer... ela estava preparada para que aquilo que estava pronto para acontecer a seguir não fosse apenas mais uma noite em suas vidas. eles eram como feridas abertas que resistiam e resistem e lutam contra aquilo por trás desse sistema ruim. sistema esse eternamente usado como único mecanismo de apego a essa inútil sobrevivência subserviente. sim, corpos prontos para quebrar tal mecanismo, por uma hora ou duas, três ou talvez cinco. eles nunca se preocupavam em contar o tempo como quem conta hora ruim... no fim das contas, a dívida seria imensa.

o banho não tinha sido um qualquer, foi o previsto. por tanto  esperado e minuciosamente desejado.

a água que corria e escorria pela sua pele teria pouco o que contar em relação ao que ele teria preso no peito, para guardar como seu para um todo sempre quase sempre demais. um embaraço magistral de amor que ele nunca havia conhecido, pelo menos até se conhecer com ela.

como se vive assim?

não sei.

se vive?

acho que não. se espera.

pelo viver?

pelo você perto de mim, novamente.

e isso, é viver? e se estar é viver, o que é o esperar?

é o não ter, temporariamente.

não ter, não ser. o verbo que é o mesmo em tantas línguas teima em ser dois nesse português bem gasto... e nos empurra a voltar ao que é necessário para a sobrevivência. o desejo é muito, cobiçar é querer em dose tripla tudo o que se espera do mundo. afinal os frutos são o que são, nascidos da mesma terra que nos deu a vida...

o fruto é um e se não fosse um, seria todos. o que eu quero eu quero em um, inteiro. e só pode ser inteiro quando é comigo.

o que é isso que eu quero? esse gosto de um...

um gosto que a gente não esquece, um cheiro que não larga, uma textura fina demais que foi feita para ser entregue a farta falta de escrúpulos da nossa sede...

ah, essa sede.


ninguém aprende a passar por isso...




***


4.8.10

i wanna steal your innocence








....eu não sei ser mais do que sou. espontânea alienação.


antes da meia noite, depois das duas. dois, entre ontem e o hoje, amanhã? não tem mais. se eu pudesse ter um gosto, apenas um, escolheria o outro. além de mais gostoso é também o mais difícil de se ter.


um som? duas mãos que não as minhas. uma voz que não a minha. o cabelo que seja sim o meu, o resto de uma história que não tem jeito, nem volta, nem norma. 


um tempo que não foi, pois não pode ser sob a luz de um dia bem claro, daqueles que derretem geleiras nos himalaias. e quem quer a luz? que bicho é esse que chora feliz debaixo de um sol mesquinho, cego, tirano? ninguém. nem eu mesma. sozinha apenas. 


calada em mim. afogada.


o escuro resolve as coisas que vivas, sabem de si e do outro. o escuro ensina a querer mais, desgraça de quem não teme. quem responderá tal insulto? deixar ser o que se é, por pura e plena negligência de um hábito que não é humano. não me venha dizendo o que é e não é humano...


dele, só eu sei. dela, ninguém sabe. ela é um humano diferente. *





3.8.10

"nunca mais vamos nos rever tão jovens..."



***

eu fui, eu voltei, eu repeti a dose. falei mais do que devia, menos do que esperava, senti tudo o que não pretendia, repetia tudo o que não se revela. o que a gente faz dá em árvore? é fruto para a saciedade de alguém caindo de fome em algum futuro distante ou o que a gente faz é erva daninha, resplandecendo em ódio tudo o que toma como seu sem ao menos a decência de se manter friamente desligado daquilo que domina?

viver dentro de uma janela dá nisso. ou melhor, dentro de uma tela, a tela que tem fim, cantos, diâmetros. o que não se enquadra não se sente? o que não é visto não pode ser usado contra você? o que tem gosto não se presencia enquanto a luz, apenas a luz tem voz (e vez)? 

enquanto pares seguem secos e perdidos, partes seguem sem dano e sem abrigo ou será que sou eu que penso em um ritmo ináudivel a quem vê e espera de menos?



***

14.12.09

like bogie and bacall



porque tudo na vida devia ser simples assim, como o bogie e a bacall...

***

2.11.09

true, boy




"yeah... I know I'm going to hell in a leather jacket."

JC


***

24.10.09

"free as a bird"


***

enquanto não fosse, seria mesmo não sendo.

pensava quieta.

o ser era de fato a afirmação da verdade que não se via logo adiante, num plano presente dos acontecimentos. o fato era que tudo seria além daquilo, e somente ela - e ele, mas em segredo - poderia saber disso.

como? ela - nem ele - saberia responder, mas os dois tinham como numa folha impressa com sangue e linhas finas daquelas usadas em costura cirúrgicas, algo como uma carta adicionada ao tampão do peito que dizia que sim, aquilo era mesmo não sendo.

era uma certeza física por fim, uma certeza assumida por princípio.

era no entanto e sempre foi - só demorou pra ser assumida como fato consumado e inevitável mesmo sempre sendo.


***

1.7.09

poesia que não é mas que é minha


no --
i have no faith in medicine so bite me,
on my mom's side of the family
everyone is a doctor

on my dad's side
everyone is a poet

maybe I'm the best of two worlds but
I might as well
be the worst.



***


23.6.09

boy's best friend





"My only friends speak no words to me

But they look at me and they don't forget

That a boy's best friend
Is his mother or whatever has become his pet"



Jack White, "A boy's best friend"




***



19.6.09

cartas que não foram... - série antiga que ressuscito







"15 de maio de 1975




Querido Frank,


Devo escrever-lhe para contar o que tem passado, o que não tem passado, o que tem ficado a padecer sob o morno olhar do sol intimidado pela incrível força da neve que cai lá fora. Meus dias tem sido vazios - como tem sido vazios os sonhos de outrora. Momentos inesperados que nunca haviam de ser, se tudo tivesse sido assim como nós planejamos.

Saudades daquele mar.

Saudades das inteiras noites que passei a esperar por ti, inteiras pois eram durante elas que me sentia enfim inteira, talvez por saber bem o que ouviria de você. Sempre te amei, pelo menos sabia que amava a ideia de ti. A ideia daquilo que, agora sei, nunca vi por inteiro.

Você me pergunta, como andam as caminhadas no território tão extenso como morto desse fim de mundo, pois eu digo, não acontecem. Trancaram-me terrivelmente cedo e nunca mais cederam, pedidos e preces ficam a mornar e os olhares de todos são de terror ao encararem esse fantasma que me tornei pela pequena janela de vidro inquebrável da porta do meu quarto...

Quarto!

Quarto era ali onde aquela espuma batia e fazia da areia colchão sagrado, lua de nós dois.

Por onde andas, por que ombros tem passado tuas mãos?

Pois as minhas apenas conseguem escrever para ti.

Escreva-me, sim? Tudo morre como morre tudo enterrado sob o imenso branco lá fora...



Rose
Whitby Mental Health Centre, Ontario Canada"


29.5.09

trecho de qualquer história mal inventada

"...se for para ser como é feito nos antros de cores pastéis onde senhoras se vestem como senhoras debaixo de um sol morno, com moscas envolta dos anéis que julgam ser de muito valor dentro de comunidades de segurança total, em mundos construídos dentro de muros pintados com as mesmas tintas pastéis que regem o tom normal das conversas entre todos que por ali passam... ah, se for assim e se for para ser assim que não seja. que se amarre num véu todas as palavras que - claro - foram vazias e invejosas, maleáveis e flexíveis como as de amigos devem ser, como aquela palavra que te contei que não sei bem o que quer dizer, já que o significado qualquer de qualquer coisa é afinal aquilo que bate e escorre como escorrem seus falsos deleites sobre mim. pegue esse véu, rasgue minha incerteza e jogue tudo aquilo que não foi no lixo. não se esqueça de jogar e sair andando, como se no lugar de solas seus pés criassem asas e então, finalmente suma da minha frente. "


***

26.5.09

for someone, really

"jealous in my mind are all dead, I love you so much, never forget
all of our secrets coming undone, what a beautiful state we're in"
VV, Hotel (The Kills) in Good Night Bad Morning


queria que
se fosse verdade e se fosse o que é
que tudo fosse fácil e certo, que de certo o que seria seria o que é para ser.

mas como boa mulher centrada
- daquelas que mostram que não pisam onde não devem pisar -
me regulo e me asseguro de que
o e se
não carrega nem o tom
daquilo que é
(inteiro ou pela metade)
e que se o somente fosse 
tudo o que nos espera seria apenas... 



uma história mal contada
(daquelas que te fazem engasgar enquanto se desenrola)


***

27.4.09

a little hurricano and a seven nation army






Era uma vez, uma época que se reinventa. 

Qualquer coisa que ainda vive e respira 
nos cantos sujos do mundo, 
e que sem dar sinal nem pedir licença, 
retorna pra nos assombrar, 

é... 
É qualquer coisa que ainda não tem nome, 
mesmo existindo há tanto tempo... 
e que sem ser menos
nem pedir mais
ainda grita por alguma revolução, sendo a mesma 

sempre a diferente 


e quando ouvida


(e digerida)


é reformulada e novamente reinventada...



Porque a verdade não dura mais do que 
o tempo de uma canção.







Meu querido Jack White com os doidos da dupla 
The Kills. 
(aqueles que assisti ao vivo no outro dia).


***

momentos inesquecíveis (alice sendo melancólica) parte 15



Catherine: You said, "I love you," I said, "Wait." I was going to say, "Take me," you said, "Go away." 


***


Personagem interpretado por Jeanne Moreau no filme Jules et Jim do mais que imperfeito François Truffaut... preciso dizer mais alguma coisa?


23.4.09

The Kills, The Thrills (video)



***

Aqui está a Alison cantando na minha cara quase me jogando pra trás! Não liguem pro som, não dá pra entender nada...




***

The Kills, The Thrills - Pictures (algumas)


Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

the kills, the thrills...



So...


Por volta das dez e vinte, Alison Mosshart (VV) e Jamie Hince (Hotel) entraram no palco. Eu que estava - sem exageros- de frente para o mesmo, mais para o lado direito (onde Alison geralmente fica) e com as caixas de retorno literalmente embaixo do meu queixo, tive algumas oportunidades inéditas como por exemplo fazer um vídeo em que ela, VV, Alison ou simplesmente 'ela' canta NA MINHA CARA, quase me matando de susto e me fazendo cair para trás. Sem contar das cento e pouco fotos que tirei, todas - em minha opinião - bem decentes em se tratando da camera que eu levei (a minha canon velhinha, só 6 megapixels). Enfim. Logo no começo comentei com meu marido que estava ao meu lado, disse: "a Alison não me parece inteira..."


Depois de todas aquelas músicas mais conhecidas e que alguns cantaram em coro (nunca vi plateia mais chata) Alison pede um minuto para o seu parceiro de estripulias e vai para um canto enquanto tosse, tosse, tosse... ela se ajoelha e continua. Parece não conseguir falar, Jamie caminha até ela - lembrem que eu estava de FRENTE para eles - e pergunta: o que foi? você está bem? Ela faz um sinal que não com a mão enquanto um rapaz da organização vai até ela e a ajuda a levantar.... Jamie vai ate o microfone e diz:


-We seem to have a situation...


Ele respira fundo, começa a dedilhar qualquer coisa em sua guitarra e canta uma música de improviso que é levada dolorosamente até o fim com palmas da platéia. Ele agradece timidamente e sai, cabisbaixo. As luzes se acendem e os gritos tomam conta. "I want my money back!", "If you don't fucking come back you fucking suck!" "Alison get your ass down here!" e outras delicadezas do mesmo porte. Eu que ali estava, diante daquilo tudo fiquei perplexa e tive uma ideia qualquer. Alguém havia jogado um ursinho no palco, ainda no show de abertura - é... um ursinho! Eu o encontrei e escrevi um recado num pedacinho de papel e grudei no bicho, fui então ao técnico que ajudou a VV a se levantar e que agora estava tirando as guitarras do palco e o olhei com cara de cachorro perdido:


-Is Alison going to be ok?


-Yeah, yeah I'm sure she's gonna be fine! Thanks for asking.


-Could you give this to her? It's nothing really, just so she'll feel better.


Ele olhou pro ursinho e abriu um sorriso lindo, lindo mesmo e soltou um:


-This is really nice of you, she'll love it.


E então eu e meu marido agradecemos e fomos embora...


Ao mesmo tempo que sim, eu sei, ela durante o show não para de fumar e não deve lá ter o melhor estilo de vida, ainda sinto que não merecia aqueles berros horríveis quando tudo aconteceu, senti que precisava fazer alguma coisa... Sem contar que são uns ingratos, essa banda é a que cobra mais barato pra fazer show e ninguém nunca reclamou! Tinham que reclamar bem no show que eu estava! Enfim...


Querem saber o que estava escrito no bilhete? Aqui vai:


"Alison, please get better, ok? We do care. Alice"


No caminho para o carro no meio dos meus suspiros, Andrew (meu marido, musico profissional) solta um desabafo:



-Mas ele tava com a guitarra desafinada!

HA!

Pelo menos a gente se diverte...


***


as fotos estão por vir!


28.3.09

fragmentos do que se sucede


***




"Fico bem cansada de querer esperar pelas pessoas. Parece que eu sempre vivi dentro do eco da urgência, um eco curto, pouco espontâneo que simplesmente me engole. Fico sem o que poder fazer, esperando por quem amo. Sou aflita por natureza mas não demosntro. O que há de errado comigo? E aqueles que dizem entender minha aflição não comem do mesmo pão que eu. E o que faço? Morro seca, cada dia mais. Tudo é sem gosto, sem forma. Sou um pão mal assado que alguém teve pressa de arrancar pedaço, é o que me parece. Como da lua. As estrelas são sal nessa refeição incompleta... O que fazer? Esperar, I guess..."




***