18.4.11

dúvida


-- às vezes eu não tenho certeza se sou muito lúcida ou muito estúpida....


'repaginando o tempo, o espaço, reformulando as idéias, os pensamentos que na realidade fina e cruel em que vivemos, nunca de fato mudaram. a mutação, antes de mais nada deve ser aceita como uma forma alternativa do mesmo e sendo o mesmo algo semelhante ao que o sinônimo representa, a mudança deve ser no fim um sinônimo do idêntico.'  --


23.3.11

o fim do mundo chegou, diz a opinião geral




É fácil prestar atenção na desgraça alheia, emprestar alguns curtos momentos do dia para que a sensação de compaixão supere o conforto claramente assumido como norma. É fácil conversar em volta da mesa do café sobre o que acontece do outro lado da terra, do outro lado do oceano. É simples e bonito tuitar alguma coisa sensível em relação à dor de outro alguém que você não conhece. É incrível ver revoluções tardias, ditadores arredios arremessados aos leões, humanos ou não ajudando uns aos outros em momentos de desastres naturais não tão naturais assim, é tudo muito... é.

De um lado assistimos a tudo como os telespectadores esfomeados que somos e apontamos os dedinhos na direção de quem - ouvimos dizer - ser o culpado. Adoramos emitir opinião, adoramos transmitir essas chamadas opiniões por todos os canais possíveis.

Mas para mim, bom mesmo seria descobrir como se faz pra encontrar aquele botão do 'não senhor, o senhor não tem a mínima razão, deixe sua opinião do lado de fora porque obviamente, ninguém pediu por nada do gênero no recinto', e partir calmo para a próxima desgraça mundial, a próxima praga, o próximo escândalo.

Opinião parece que todo mundo tem, a verdade é que não, não tem não. Opinião é um negócio raro, difícil de ser conquistado, dolorido. Opinião é algo que não se pode ser entregue nem presenteado, não se vem à tona com leveza nem à boca com ar de 'fica-a-dica', opinião se forma. Tudo o que se forma precisa de base, conceito, conhecimento.

Conhecimento, como já sabemos, é uma coisa. Informação superficial e em massa é outra. 

Conhecimento é experiência e informação combinados num esforço sem fim de se alcançar a raiz de qualquer assunto. Opinião é trabalho duro e o que me deixa louca é ouvir merda conhecida como preguiça e mediocridade pintada como consideração, ideia ou até mesmo... opinião.

Buscar por respostas nas cabeças falantes da TV é tão fraco, tão particularmente vazio quanto não buscar por resposta nenhuma e inventar todas como se o conhecimento fosse algo exclusivo dessa fonte infinita de palavras que nascem nesse viveiro de piolhos que todos nós possuímos. É isso.



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foto daqui.

23.2.11

constância




- enquanto os pássaros ainda sobrevoam minha estância, resisto a tudo aquilo que resiste aos meus segredos. o ar está denso, o céu escuro e triste... o mar permanece sereno. eu espero, atenciosamente.

o tempo pode ser brutal e venenoso mas não me espanta, o que me espanta é a visão da cor clara dos seus olhos me esperando de longe, pensando o mesmo que penso agora e agora e agora e... - 


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foto daqui.

25.1.11

saudade paulistana



Dá um beijo nas criança, tio Mi, um beijo na tia Eduarda, muitos beijos dessa terra etérea. Mande um abraço pra todo mundo por mim, muitos apertões nas bochechas, muitas cheiradas nos cangotes alheios, muitas noitadas nos cafés da vida, muitas manhãs de pão com manteiga na chapa, pingado e suco de laranja tirado na hora... tio, vê duzentos gramas de pão de queijo 

'pra nóis?', 

não, só pra mim. 

Tá tocando O Barquinho, maysa ou elis? Elis. Mas essa eu gosto Maysa.

Que ce quer? Pode me ver um baurú, óquei... proce porque num como carne. Manhê, eu pedi pro moço encher isso aqui de catupiry, me vê mais dois café faz favô, que carioca o quê! Café com leite.

Eu sou a verdadeira café com leite, o leite do seu café. A azeitona do teu requeijão.

Pois esse ônibus tá lotado, 'pega o próximo', não! Preciso estar lá agora! O bilhete tá pra vencer... pula a catraca!

Alice, que bicho do mato você, vai aparecer hoje? Não. Amanhã? Não. Mas quando vamos nos ver? Quando você aprender a gostar de sentar na calçada e beber... café. Breja? Nunca. Cheira e fede à xixi de gato.

Perdi Nietzsche no metrô ontem...

Te encontro no Santa Cruz, a gente pega a sessão das quatro e para pra comer no Bertioga, logo que o cidadão ali resolver se vem ou não vem... por sinal encontrei com u Zé no Tortula, ele tá gordo e bobão como sempre, você viu a Isabel? Continua com aquele quilombo no queixo... para! Vamos parar rapidinho no Rei do Mate?

Copão de pão de queijo!

Cinema...

Cafeera?

Johnny, não tire o dia por nós, a Si não vai aparecer...

E o Mafra? Sumiu, ninguém encontra!

Nóis já vai, e antes vamos pagar de rico no Morumbi?

Vamos, depois de parar no Rei do Mate...

Tarde assim só o Fran's, Nathy 'mas eu ainda to esperando o Chico, Li!'

ai ai, 'Alice vai, continua que eu te espero aqui', porque? Vem comigo! 'ce tá rapida demais pra mim...', eu preciso parar no Brachesquento, vê se tenho fundos...

'vai que eu te espero aqui...' mas meu amor!

Deixa rodar a maquininha, a barraquinha, minha bonitinha... pagou o estacionamento? 'não, não tenho dinheiro...' caráleo...

amor à la Paulistana...


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17.1.11

rambling

que prazer, o da alegria extraordinária. o fruto de um grande choque entre o prazer físico de se banhar em um rio daquilo que se deseja e o gozo emocional de se encontrar seguro daquilo que você sempre soube durante tanto tempo: que esse dia viria ao seu encontro, mais cedo ou mais tarde.

alegria extrema. o culto ao sentir, que seja intenso em conexões nervosas, rico em excessos deliberados de gostos e faíscas, real em cor, cheiro, toque. real em vida.

porque o que nos faz feliz é feliz por nos fazer feliz.

porque o que nos enche de dor e prazer reutiliza nossa vontade e ação de sentir para que o sentir nunca morra, para que ele continue real em cor, cheiro, toque.

que prazer, o da alegria extraordinária. do compreender que o amor não vai além do que você é, o amor se reinventa em formas invisíveis mas evidentes. ele toma a forma dos seus lábios e das lágrimas dos seus olhos, ele permanece vibrante nos seus nervos, ele não é de aço nem de músculo, ele é de eletricidade.

você é condutor.

a alegria extrema do permitir.

permitir que o todo permaneça inutilizável, entender que a pequena revolução transforma universos, entender que o gosto do prazer é o mesmo gosto que sua boca carrega, que seus olhos corrompem, que suas mãos desatam.

Tom Waits lendo poesia do Bukowski.

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20.12.10

baby, think ya used enough dynamite there?


'boy, I got vision, and the rest of the world wears bifocals....'


Butch Cassidy, personagem vivido por Paul Newman 
(os olhos azuis mais amados da minha mamãe)



Uma das minhas atividades favoritas é ficar quieta. Prestar atenção no que geralmente não recebe nada da mesma, regular em mim o desejo de se desejar: um tormento, para aqueles que me conhecem. Mas sim, gosto de fazer com que isso seja rotina mesmo que a rotina em si não permita; o truque é manter o truque vivo.

Seguindo...

Numa 'conversa' entre Martin Scorsese e um bando de louco (eu tava la) ao vivo num teatro das antigas aqui em Hollywood (eu moro na área, para aqueles que não sabem que eu não to mais em Gotham), alguém o perguntou sobre como ele se sentia em fazer 'filmes de época', e é claro que o Mr. Director respondeu qualquer coisa de estonteante sobre tais películas (você não ama o som de um Argentino falando essa palavra com gosto?). O que ele disse?Com aquele olhar de nerd debaixo de óculos maiores do que a própria cara, Marty sorriu nervoso e disse 'não existe isso, filme de época? o tempo é agora, o ontem é o que vivemos hoje, o que viveremos amanhã, nunca vi um filme sob esse ponto de vista, a época não vai necessariamente fazer da história algo mais ou menos importante pros tempos atuais' e seguiu com o seu discurso tímido mas no ponto: o tempo é agora.

Hoje, enquanto ficava quieta como é de costume, pensei nisso. O rabisco de chuva lá fora que já dura três dias, coisa atípica em Los Angeles, manteve o ar do aqui de dentro ainda mais acolhedor e na TV (monitor grandão extra ligado no meu notebook, não tenho televisão) passava um filme 'velho' mostrando imagens de certos rapazes lindos e familiares, deixando algumas frases tão comuns reverberar na minha caixola enquanto o pouco do que fazia sentido se mantinha adormecido...

Um daqueles rapazes já morreu: Paul Newman. O outro continua vivo e enrugado, cheio de projetos que geralmente são recebidos com alguma resistência e narizes tortos por meia indústria (Hollywood) ou são aplaudidos com louvor pela outra metade. Eu nunca fui muito com a cara do segundo mas ando mudando de opinião. Antes ele representava coisas chatas e sem criatividade, hoje já vejo tudo o que ele faz com outros olhos. Já com o Paul Newman as coisas sempre foram diferentes, sempre amei my cool Luke e seu sorriso gostosão e olhar que sempre derreteram o coração da minha santa mãe, a Lucinha... 


A questão é que, tudo o que se passava na história diante de mim, o conteúdo do olhar de um, a carga emocional na voz do outro, as palavras e cenas repetidas sem cansaço pelo projetor (gosto da palavra, não que eu tenha um 'projetor' sobrando) me lembraram que nada, absolutamente nada mudou e que o tio Scorsese tinha plena razão, o tempo é agora.

O filme, feito em 1969 mostra uma época completamente diferente da minha - também diferente da época em que o filme foi feito, já que a história se passa no começo do século 19 - com valores e formalidades que hoje não existem, com uma tecnologia boçal e proto-histórica mas com qualidades humanas imutáveis. Com detalhes que talvez não se repitam na história com as mesmas personagens mas com outros... que vão sempre manter a qualidade bruta que tanto amo em nós, membros dessa raça imbecil: a resistência contra tudo aquilo que não é realmente simples que no fim sempre ganha.

Ou será que eu claramente sou cheia de esperança estúpida demais? 

Quem sabe... 'it's a small price to pay for beauty' he says.




***


17.12.10

o agora.


---porque a gente lava a louça ouvindo Chico e presta atenção na chuva lá fora com a Elis. as memórias tão vivas como filme fresco rodando num projetor na parede branca do prédio do outro lado da rua, a mãe que tinha mãos tão fortes e precisas como as minhas que por algum truque da vida aprenderam a se cortar constantemente. o cheiro... o cheiro de café, canela, sabão e forno aceso tudojunto, tudopronto. o pão, o verde e as ervas sobre o queijo... o azeite. o beijo molhado que não se espera, o aperto no peito...

e o meu amor que não vem.

***

20.11.10

amor só é amor quando...



'love ain't love until you give it up'
eddie vedder





Ah... Eu conheço bem o cheiro, a mistura de cigarro queimando e um leve odor de algum tipo de bebida alcoólica (geralmente vinho tinto chileno), o peso da lã fina usada na confecção da flanela que deve ser a de estimação, afinal ele sempre é visto com ela... o pisar firme das botas sujas de lama, remendadas, reutilizadas, reabilitadas over and over and over again... sim, eu conheço bem. O cabelo emaranhado, tão parecido com o meu. Eu conheço bem.

Quantas vezes repeti que o que me bastava na vida era um Eddie Vedder e uma janela pra chamar de minha? Milhões. Quantas vezes conquistei toda essa simplicidade que preciso? Nenhuma. Quantas vezes decorei alguma música que de cara se enfiava na minha intimidade de tal maneira que a dor não passava de lembrança esquecível? Quantas vezes a melodia, a letra e tudo aquilo que vive e respira nas entrelinhas, revirava com um mundo que ainda não conhecia, pronto para me engolir?

Muitas. Milhares. Tantas que não sei se existe número que conte.

Paro e penso se devo dizer o que vou dizer... mas digo mesmo assim, sempre estive pronta. Todas as vezes, por todo esse tempo, do começo ao fim e do fim até o próximo começo... 

Não que eu espere que de fato esse cara vá caminhar até minha porta, dar um hello e me chamar pra dançar na chuva, mas que o tempo que a música dura, os instantes logo após os primeiros acordes, os segundos entre uma palavra e outra - o tempo de uma inspiração ofegante ou não - são no fim tudo o que preciso. Os segundos necessários para que um sonho qualquer ou uma visão, revitalizem todo um corpo e mente de uma menina pouco sã, feliz demais por amar desse jeito único dela.


Até a próxima canção.




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16.11.10

vinte e seis, dezoito, dezesseis anos... é tudo a mesma coisa.


Eu? Eu gosto de livros na estante, de cores infinitamente mais delicadas do que as minhas cores naturais por todos os cantos, da música alta chorando baixo entre quatro paredes e prefiro os perfumes úteis. Sim, é o que você ouviu. 

Pois no dia treze de novembro de dois mil e dez fiz vinte e seis anos, se isso ainda importa? Não sei. Desde quando completei dezoito anos parei de perceber... aliás, tudo mudou quando fiz dezesseis e por ali parou. Acabei sempre sendo uma continuação das mudanças que propus para mim mesma naquele ano e a partir dali, a vida surgiu de maneiras (quase) óbvias e ao mesmo tempo tomou rumos indistintos. O centro, o miolo, a raiz continuam as mesmas... por sinal: a mesma. Uma cumplicidade do mesmo inteira, cheia de ramos que unidos engrossam, encontram força e buscam pela superfície... do que? De mim mesma.

O desejo, o intuito, a razão sempre foram um. O resultado, o fim do túnel, o pote de ouro no final do arco-íris sempre teve um nome e o nome sempre foi o mesmo, nunca mudou a cor, o jeito, o cheiro como o tempo insiste em querer que eu acredite... o tempo não mudou desde os meus dezesseis anos, os olhos observando num canto da minha janela, as mãos prontas para me apoiarem assim que a queda fosse iminente... ah, dez anos se passaram e por mais que tenham passado, os meus dezesseis anos vivem confortáveis dentro das minhas veias...

Meus dias nunca mudaram apesar de terem mudado radicalmente. Meus prazeres, minhas vontades, minha beleza que toma formas diferentes, sempre, continuam as mesmas e a geografia por mais que grite 'alice doesn't live here anymore!' está brutalmente enganada. Sempre vivi onde vivo, desde os meus dezesseis anos...

Pois, vinte e seis. Vinte e seis em um treze de novembro de dois mil e dez é algo para ser marcado, não porque qualquer coisa tenha mudado.... mas precisamente porque nada, nada realmente mudou - e isso é bom.



***



23.10.10

je te raconterai l'histoire de ce roi...


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Jacques Romain Georges Brel era um garoto franzino com mãos grandes e orelhas maiores ainda. Sua capacidade de demonstrar qualquer tipo de dor enquanto homem diante de um microfone era tão grande, que a mera menção de seu nome causava desconforto entre os ianques reis do palco... 

Sua voz nunca se fez popular no mundo azul e vermelho da América deles, mas se fez popular o bastante na sala de estar de outra América, uma mais verde e amarela, uma mais simples que a deles. Ne me quitte pas, ne me quitte pas... implorava o rapaz das orelhas grandes num sistema de som adquirido no Texas, Estados Unidos da América no apartamento da mamãe sobre uma farmácia qualquer da grande capital do Estado de São Paulo... ne me quitte pas... moi je te t'offrirai des perles de pluie venues de pays où il ne pleut pas...

Mamãe cantava junto com olhos distantes e emocionados.

Ele tinha meu coraçao apertado entre os seus dedos grosseiros bem antes, enquanto pronunciava 'le coeur du bonheur'...


***