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15.5.11

pai.


***

Eu não entendia o porquê, depois da siesta uma meia hora sentado ao lado do equipamento de som antigo sintonizado na estação de música clássica. Jornal lido da manhã sobre a mesa de centro, sapatos impecáveis, restinho do cabelo que sobrava na cabeça bem escovado, ombros largos, tão largos que era difícil de alcançar com os meus braços ainda curtos.
 
Contestava. Eu contestava o porquê da música clássica, do sapato impecável, da roupa sempre bem passada. Contestava o porquê da posição politica tão bruscamente removida do que antes era o seu bem maior.


‘É diferente por causa daquilo que ainda é meu bem maior'.


Centenas de pessoas que ajudou durante a vida, advogado de causas nobres, perdeu a vontade de cobrar, aceitou ser tomado conta calado, esperou por milagres infindáveis, se orgulhou inúmeras vezes da minha personalidade independente, mas quando a independência mostrou a tendência subversiva (pelo menos dentro de casa) de se jogar a favor de uma cultura que era sinônimo de inferno, o mundo caiu. 


Não entendia o inglês, não conseguia falar o nome do rapaz de cabelo comprido no poster do quarto. Perguntava pela razão da minha depressão, pedia pela minha ajuda sem me explicar o que sentia, calava com um tipo de dignidade única que nunca mais encontrei em ninguém. Não mostrava dor, só mostrava carinho, o tempo todo, com todo o mundo.


Com todo um mundo.


Quem pode dizer isso? 'Meu pai só tinha carinho por tudo no mundo?' Eu posso.


Eu posso.


Feliz aniversário para alguém que fez da expectativa um estilo de vida. ~~


1.10.10

meu pai, paixão e jung - primeira parte


Freud / Jung


Como vocês sabem - talvez não saibam de nada - meu pai era psiquiatra. Tinha um orgulho tamanho disso, mas orgulho maior era sua admiração pelas visões de Sigmund Freud, como se tudo aquilo pregado por ele fosse de fato tudo aquilo que ele precisava saber.

Algumas das minhas primeiras memórias estão relacionadas ao grande quadro de Freud que papai tinha pregado na parede do seu escritório. Quando nos mudamos para o apartamento e após a morte do meu pai, o quadro foi parar no meu quarto... inexplicável mas não absurda a ideia de se ter aquilo que meu pai conhecia como sua explicação maior e mais completa de vida, observando tudo aquilo que fazia quando ali estava. Meu quarto, os olhos atentos de Freud. Meu pai.

Até uma noite em que misteriosamente, o quadro... caiu.

O espanto foi enorme, mas a rapidez com que levantei-me da cama foi quase esclarecedora. O quadro parecia gritar para que eu acordasse, acordasse e deixasse qualquer coisa de lado... ou não?

Meu pai detestava Jung. Não. Vamos ser justos, ele não ia com a cara de ninguém que tivesse qualquer idéia conflitante. Como bom Affonso, apaixonado por qualquer coisa que seja, sua paixão pela clareza quase matemática e bruta a respeito dos tormentos humanos de Freud o mantinha distante de qualquer outra razão ou possibilidade. Afinal de contas, ele já era um senhor cheio de manias e pensamentos cristalizados quando eu, pré-adolescente e obstinada disse 'mas papai, ouvi falar de Jung e de seu conceito de memória coletiva... gostei'. Foi quase um insulto, um tapa na cara.

Como sua filha, a filha mais preciosa, a mais única e a mais querida poderia de fato gostar de... Carl Jung?

A reação foi categórica, ele agarrou qualquer coisa numa gaveta, buscou seus óculos de leitura e fez qualquer sinal para que eu o deixasse quieto. Bingo. Jung era o nome daquilo que o irritava e Jung era exatamente o eu buscava...


TO BE CONTINUED....

29.8.09

meu pai é o ben affleck!





Postei há alguns dias atrás algumas fotos do meu pai aqui no blog e ao observar as imagens por algum tempo notei algo estranho que não havia notado antes... fiquei pensando o que era. Pensei, pensei, pensei... Até que descobri! MEU PAI E O BEN AFFLECK SÃO PARECIDOS! HAHAHAHA! Desculpem, mas achei muito engraçado que uma foto do meu pai da década de 30 mostrando o então estudante Plácido Affonso jovenzinho, parece que saiu de um filme B hollywoodiano com quem? com quem? hein? hein? BEN AFFLECK!


Foi quando assisti a porcaria do Pearl Harbor que notei a semelhança e fiquei de cara. Perguntei para algumas pessoas e todas falaram que os dois realmente tem muito em comum e olhando o meu irmão hoje em dia - que medo! - também penso que ele tem uns traços Ben Affleckianos... ai! onde o mundo vai parar?



***


14.8.09

o gênio e a deusa






"Wallowing in the past may be good literature. As wisdom it is hopeless."
- Aldous Huxley

Logo após a morte do meu pai, encontrei um livro velhinho e gasto, amarelado e cheio de anotações em uma de suas estantes. Um entre tantos com as mesmas características, com as mesmas formas e cheiro de biblioteca do papai. Mas esse livro que peguei com gosto e curiosidade me marcou por ser talvez o único livro de toda a sua extensiva coleção totalmente em sua língua original: o inglês. Papai não sabia inglês, ou melhor, não queria aprender o inglês. Viveu uma boa parte da sua vida na França, Portugal e Itália, viajou por toda a América Latina dando palestras mas nunca se atreveu a tocar um pé nos Estados Unidos, e por muito tempo sofreu pelo meu sonho de acabar exatamente onde estou... Enfim. Esse livro me chamou a atenção por ser contra absolutamente tudo que meu pai parecia ser... até aquele momento. O livro antigo e cheio de história agora acabava em minhas mãos, essa menina de catorze anos que já falava inglês e devorava essa língua como também bebia café com leite com pressa pelas manhãs, assistia filmes de hollywood como se fossem histórias escritas por ela mesma e adorava a música como se adora a algum deus distante porém eternamente presente. E agora esse livro ali, quieto e absolutamente barulhento, não parava um segundo diante de mim sem me implorar por sua leitura, por seu entendimento e lá fui eu...

The Genius and The Goddess de Aldous Huxley se transformou ali em minha obra favorita desse autor, mesmo depois de tanto trabalho sobre Brave New World.

Não é a toa que amo tanto essa história...

***


*foto: papai e irmão.