29.3.07

momento de infantilidade do dia

quando era pequena, pequenina mesmo porque sempre fui meio grandona, eu queria ter linhas no pescoço.

"i want lines all over my neck!"


eu tinha uma amiguinha de escola que era mestiça e que tinha as linhas no pescoço mais lindas que já tinha visto até então. eu tentava imaginar se algum dia teria as minhas próprias linhas nesse pescoço branco mas olhava para a minha mãe e ela nunca teve nada, até hoje. olhava para o meu pai mas não dava pra me basear muito nele que já tinha um pescoço de velhinho na época pois já era um respeitável senhor quando nasci. enfim, tive que me conformar em acreditar que nunca as teria. mas um belo dia ao me olhar no espelho bem cedinho antes de sair percebi alguns traços sutis e outros mais fortes em volta do meu pescoço, na pele branca com algumas sardas e algumas veias azuis aparecendo. todas elas - as linhas- perfeitas, do jeito que eu sempre quis! elas estão aqui exatamente como eu lembrava da minha amiguinha japinha. queria muito poder contar pra mim mesma com cinco anos que eu teria as linhas no pescoço do jeito que eu sonhava e que tudo era uma questão de... tempo.

elas significavam muito para mim e agora significam muito mais!

27.3.07

como papai dizia

"(Então ela sabia que estava tudo "nos conformes", como o pai dizia. "Nos conformes" pra que a coisa vingasse, a coisa toda que ela planejou a vida toda! E que vida hein! Foi vivida inteiramente naquele coração e era grande a coisa, porque se espalhava por todos os cantos que ela passava... era irremediável o amor que ela colocava em tudo, em todos que tocava. Era algo impressionante. Algo comovente se não fosse tão dela.)

-Já faz parte, entende?
-Como assim, entende? Não entendo, não sei do que você está falando, simplesmente acho que ela é carinhosa demais, sei lá...
-Ela pensa demais nos outros, mas isso é bom, não é?
-É. Mas não é, né? Ninguém vai cuidar dela, nunca!
-Mas ela cuida bem dela mesma, acredite...
-Porque deveria acreditar? Para de falar as coisas pra mim como se eu não soubesse dela, pô!
-Tá bom... mas você entendeu? Ela se cuida... ela vive num mundo dela.
-Ah, disso eu sei! Caramba, sempre falei pra ela viver mais!
-Mas aí você se engana! Ela vive mais que todo mundo, aqui nesse mundo normal e no mundo dela...
-Ai cara, cala a boca! Ninguém vive assim, ela precisa de um psicólogo, terapeuta, qualquer coisa do gênero. Ela tá ficando maluca, vai vendo...
-Nossa! Meu deus, cala a boca!
-Cala você, seu bosta!
-Eu já falei que você não sabe nada dela e o pior é que ela gosta de você. Acha que você é super bonzinho... bonzinho! Deus do céu...
-Bom, já que conhece tanto, abraça logo... ela vai precisar mesmo de alguém. Tá viajando mesmo achando que vai a algum lugar.
-Meu caro, se segura na peruca, porque quando o nominho dela aparecer em tudo quanto é lugar você vai arder no inferno por blasfemar!
-Ah... vai vai! Vai lá abraçar a santa!
-Nossa! Você é maluco..."

26.3.07

A Doubt


'Everyone speaks at the same time. Everyone wonders "Who am I?". It'd be sad to blow through time, we never go through the sky, we never know when to die... lean in to walk, we dreamed of tonight, lean in to walk... we dreamed of tonight. We all choose to live life, we confuse how with why, everyday is lost as it goes by... these moments don't compete and i wind up next to you, and all that i need is a doubt, that's all one that feeds the mouth. One simple means is to leave it by the door... One time top lay is the time you play for, and you never set a limit...

Lean in to walk

Nothing missing from life
Lean in to walk
Nothing missing from life
Nothing missing from life
Oh
Lean in to walk
Nothing missing from life
Lean in to walk
We dreamed of tonight
We dreamed of tonight
And don't ever set a limit'

so...

sinceridade é a única coisa que me resta.

quantas vezes eu deixo escapar a mentira mais doce pra mim mesma? aquela que me tira do meu trilho, do meu caminho e da minha decisão? um milhão, novecentos e trinta mil, duzentas e quarenta e três vezes...
meu pai foi o único que fez a coisa acontecer. ele saiu pobre de marré deci de minas (sô!) com catorze anos e foi pro rio de janeiro quando vargas nem sonhava em ser presidente, engraxou sapatos e se transformou em dôtô, mesmo vindo de uma família que só tinha cortador de cana e afins... ele perdeu uma parte do dedo indicador quando era moleque no serviço e disso ele tinha orgulho.
e eu, euzinha, a única filha dele (são três irmãos e eu) fui o sonho mais doce que ele sonhou (ai que modéeeestia!). ele queria tanto uma menina, uma filhinha, uma mãezinha, como ele falava, que acabei tendo que colher também todos os sonhos que ele moldou pra mim. parece que caiu no meu colo mesmo essa coisa linda que ele via, esse mundo perfeito, a o ponto de harmonia completa entre a razão responsável e a arte mais complexa e humana, o cúmulo da beleza e do fim, a vida de quem abdica da vida pra se doar ao simples ser. meu pai fez isso comigo mas eu não entendi nada! nada! acho que nunca irei entender, ele não deixou diário... mas sei que acabei de receber o dom, é isso mesmo, o dom de trilhar meu próprio caminho, sem precedentes, sem grama podada ou estrada asfaltada, só pedras, lama mas uma vista linda do penhasco, um mundo de montanhas verdinhas, algumas cobertas de neve e a vista para o mar... esse oceano de possibilidades que mora no meu caminho e nesse mundo perfeito que já foi escolhido para mim mas sem deixarem instruções de como pegar o caminho, eu que terei que me virar...

e é isso.

hoje acordei e resolvi dizer a verdade a mim mesma.

e que assim seja.

24.3.07

viu o céu?
Vai ver...
azul e não tem nada redondo brilhando.

"holding tight to dreams that never end..." - JF

my fucking goodness...
é.
quando eu soube o que era pra fazer eu não fiz e daí vai entender né?
mas as linhas tortas continuam aparecendo claramente nos meus cadernos e deus não estava de brincadeira, nem por um instante, nem por uma pequena fração de segundo.
dona élice, you've been right all along.
você estava certa quando não queria.
estava certa quando percebeu.
estava certa quando caiu.
estava certa quando pensou que deveria fugir e ficou.
estava certa quando simplesmente intuiu.
mas o sonho continua tão vivo que parece mentira! já tiraram mais tapetes de debaixo dos seus pés do que qualquer outra coisa e mesmo assim você continua viva, com esse coração vermelho e gordo, cheio de ritmo, você sempre teve ritmo, noção, razão, só não ouviu porque não quis, é-lii-ciii.... e a vida continua no ritmo alucinado desse asterisco... é tudo tão variado, relativo, monstruoso, bizarro, perdido, renovado e... perfeito! nesse passo eu passo e é por isso que abracei o meu passo... passo a passo eu passo.

e à noite eu apago a luz, deixo cada sonho iluminar tudo a minha volta... mesmo que seja sonho pra alguns é real pra mim e é tão real que todo mundo entende e finge que não... e quem sabe se um dia ou dois o caos não se instala e eu evaporo e e vou ter com meus anjos e arcanjos nesse paraíso paralelo, nesse novo mundo, indeed um novo mundo mas bem conhecido por mim. deixa que eu mostro o caminho...

22.3.07

quer com açúcar ou adoçante?


é indefinívil. nunca é restritivo. nutritivo e muito informativo. é divino. totalitário e libertário, all at the same time. é uma situação verdadeiramente mágica. são noites de sonhos precisos. dias de contrução mental do que farei em pouco tempo. são dias de gente linda a minha volta, mesmo sendo horríveis, agora são lindas. são perfeitas montagens equilibradas entre a ilusão mais brilhante e criativa e a relidade dura e analfabeta dos meus dias. essa doçura esplêndida maltrata quem não vê o que acontece, mas me deixa mais feliz que o feliz pode ser! já era a hora de saber que quanto mais piso no freio mais dou gás pro freio me emperrar, para com isso menina! pisa na embreagem e muda de marcha, peloamordedeus neném! as marchas existem pra isso, pra fazer você guinar, trocar, viver um pouco mais próxima dos cento e oitenta... do jeitinho que você gosta. e cada pedrinha no caminho? o que eu faço com ela? pula, porcaria! e se tiver alguém? da a volta nesse ser! e se tiver um riacho? pega o caminho mais longo! é isso. deixe os rostos passarem, absorva o que te der na telha. não deixe de se apresentar como a mais nova imortal do pedaço, só viver é um porre! morrer é básico, todo dia o dia todo amén. zen e a arte da motocicleta é o que há, vá em frente, em cima e nunca de lado! e aprenda a realizar porque ser assim só sonhadora faz mal pro fígado! fígaro, fígaro, fí-ga-rôoooooooooooooooo!
. .
KABOOOOOOOOOM!

naquela tarde de domingo

ele gentilmente cede ao desejo dela e deixa com que ela se aquiete. ela deve ter muito para falar, ele pensa. ela deve ter uma centena de coisas pra arrancar desse peito. enquanto pensa a respeito ele apóia a sua cabeça sobre sua mão esquerda e a observa com um sorriso meio de lado, meio acanhado favorecendo a beleza sutil daquela menina que não é mais tão distante dele como costumava ser no começo, agora ele confia nela e nem sabe o porquê. ela não percebe o olhar dele ou finge não perceber e continua lendo o seu livro babel da patti smith que pegou emprestado dele. depois de alguns minutos a observando ele dirige sua palavra a ela
"você está gostando, pequena?"
"que engraçado você me chamando de pequena!" - ela solta uma gargalhada muito gostosa e coloca o livro na frente do rosto, ele ri junto dela puxando o livro para a mesa e diz:
"é porque você é tão grande, tão mulher, mas é minha nova amiga, nova em todos os sentidos!"
"eu tô amando, querido. aliás, é você que é o meu pequeno! desde quando eu era do tamanho da sua filha, sempre achei você tão pequeno..." - ela tinha vivido tão pouco, ele pensa ainda segurando a cabeça com sua mão esquerda, e ao mesmo tempo parecia que tinha vivido séculos e assistido aos grandes concertos daqueles que eram heróis para ele, ouvido as canções dos caras que já tinham virado pó!
"é que eu sou pequeno né? todo mundo vê..."
"é verdade... pequeno! você gostou muito desse livro?"
"nossa!" - com a empolgação para falar a respeito do livro ele se arruma na cadeira e abre os olhões em êxtase! - "esse livro me ensinou a amar! é como se na minha vida tivesse um marco chamado babel. a.b, d.b.! é incrível, tenho certeza que será um marco para você também, ainda mais porque você escreve."
"é verdade e eu acredito em você, nas coisas que você viveu, acredito um pouco cegamente até, mas acredito de coração."
"a gente sempre acredita cegamente em alguém..." - assim que pensa no que disse ele hesita, olha para as suas mãos, para os seus dedos longos, pras suas veias e para a pele sardenta e manchada que ele cultivou durante seus anos de vida e conclui - " mas não acredite cegamente em mim. deixe com que esse cargo seja pra alguém mais iluminado do que eu...."
"não fale isso! você é a própria imagem do iluminado do subeterrâneo de kerouac! você já foi eleito, pequeno!"
"você é muito gentil..."
"você que é... eu sei que é."- ele volta a apoiar a cabeça sobre a mão e com a outra segura firme o pulso dela que descansava sobre a mesa de madeira velhinha da varanda dele. ela sorri como uma criança ouvindo seu pai e ele fica absurdamente emocionado e grato por aquele sorriso, de repente ele sente os olhos um pouco marejados e encabulado ele se levanta e vai para dentro, mexendo com qualquer coisa na cozinha. ela fica ali mais alguns intantes para dar tempo para ele secar seus olhos, se levanta e vai até a cozinha, ele a vê e sorri mas volta a cortar os pedacinhos de queijo em quadradinhos pra colocar na salada. ela para alguns momentos para observá-lo e então o abraça de repente sussurrando no seu ouvido:
"seu coração é muito lindo, eu o vejo através do seu peito... obrigada por guardar um lugarzinho nele ali pra mim, tá?"
e assim eles ficam por algum tempo, como uma filha e um pai, abraçados de frente para o balcão da cozinha.

lá fora a brisa do mar movimenta os sinos de madeira naquela tarde serena de domingo.

20.3.07

dezesseis e vinte e cinco

Odeio tudo isso que me faz voltar a qualquer coisa que me lembre que vivo em sociedade e que fui cobrada por ela, toda a minha vida. Já sei muito bem, tudo isso que eu vivo, sei muito bem. Mas a vergonha de se ser exatamente como sou é perigosa. Ela foi enterrada, entenda. Está morta e enterrada mas volta de vez em quando como a lembrança de algum desgraçado morto que retorna em momentos oportunos para reviver em você o terror que ele algum dia fez você sentir. Entendeu? É essa a sensação da vergonha de ser, de respirar, de vestir, de vislumbrar, sonhar, educar, escrever, pensar, sentir, amar, ser, ser, ser qualquer coisa que eu sou e que me revolta quando esse morto reaparece. É uma frase que provoca. Um olhor torto mas direto. Uma porcaria duma lanterna acesa nos seus olhos. São seus olhos. E a vergonha de se ser retorna, de capa preta, foice nas mãos geladas e olhar esquivo. Tudo acontece quando estava finalmente aprendendo a deixar viver e então a vergonha embaraça a nova oportunidade jogada no lixo.

19.3.07

As coisas que se repetem toda segunda-feira

Eu não espero ter que contar quantas vezes tentei congelar essas idéias em mim.
Afinal, todos morrem, todos tem um fim e está mais do que provado que cada um escolhe a realidade que tem, ou escolhe?
Eu tinha deixado de lado a vontade de qualquer coisa que fosse do dever de todos para poder me confortar no que existe de direito de um e abandonar princípios que foram antes o fim de tantos e que talvez não será mais o fim de ninguém.
Existe tanto que é esquecido por nós, tanto que existe em cada pessoa, tanto poder, tanto dom e tanta verdade que se esquiva pelos cantos escuros dessa imensa jaula. Essas jaulas que são chamadas de vidas regradas completamente levadas pelo "mais rápido, maior, melhor, agora" e que nos deixam embasbacados com tanto que você não consegue viver sendo bicho de laboratório. Sendo exploração em conta-gotas. Eu nunca quis acreditar na desmoralização da integridade de caráter do indivíduo que propositalmente se chama de humano.
Nunca quis largar a mão dos dias que eu sonhei que algo muito forte e muito poderoso pudesse mudar tudo a minha volta e dentro de mim - e dentro de todos, as a matter of fact- mas o que parece é que algo morreu e se foi sem deixar vestígios.
E se foi, pra onde foi? A gente suou tanto, ou melhor, alguém suou tanto para que nós pudéssemos compreender que nada acaba, tudo se transforma e mesmo assim não há resposta.
Pra onde foi você?
Compadre complacente à dor alheia?
Onde você foi parar? Debaixo da ponte ou em cima dela esmagada por algum pedestre manco, desesperado em chegar na hora, no lugar, no momento certo para não ser jogado no buraco cheio de gente igual que guarda os restos dos mortais do piso de fábrica de um país, de um continente e de um mundo em chamas?
Onde você foi parar? Dentro de um trem rumo a direções desconhecidas por nós mortais moradores da selva de pedra onde até o coração esqueceu que tem cor e é vermelha, pulsando a cada falta de vontade ou pior, pulsando com a raiva que constrói muros a sua volta, com medo, muito medo, muito, muito medo do dia que chegará com o sol nascendo mais uma vez?
Onde você foi parar, doce compadre?
Atrás das grades, além do morro, dentro das casas de papelão, sobre os edifícios altos e espelhados com placas de nomes de telefonia celular brilhando nas sacadas, em escolas particulares onde os pais vão buscar as criancinhas com jagunços tecnológicos em carros blindados que nunca morrem, nas esquinas, nas lanchonetes, nos botecos, nos restaurantes, nos parques públicos, no córrego sujo, na cabeça do morador de rua, na rua, na rua...
Pra onde foi você?
Se você morreu quero que me leve.
Se você vive, grite! Vou encontrar você.
Onde for que você estiver...
Não quero perder aquilo que não se perde por nada e ninguém, aquela coisa que a gente diz que é a última que morre, ela mesma...
A esperança.